Contação de Histórias na Educação Infantil: Guia Prático para Professores
Contação de Histórias na Educação Infantil: Guia Prático para Professores
Você já percebeu que algumas histórias conseguem prender completamente a atenção das crianças, enquanto outras parecem não despertar o mesmo interesse? Muitas vezes, a diferença não está apenas na história escolhida, mas na forma como ela é contada.
Essa é uma dúvida comum entre professores da Educação Infantil e dos Anos Iniciais. Afinal, existe uma técnica para contar histórias? É preciso ter uma voz marcante, interpretar personagens como um ator ou possuir um talento especial para envolver a turma?
A boa notícia é que não.
A contação de histórias é uma habilidade que pode ser aprendida, praticada e aperfeiçoada. Com algumas técnicas simples — relacionadas à escolha da história, ao uso da voz, da expressão corporal, do ritmo da narrativa e da interação com as crianças — qualquer professor pode transformar esse momento em uma experiência rica de aprendizagem, imaginação e desenvolvimento da linguagem.
Mais do que entreter, contar histórias é uma estratégia pedagógica reconhecida por favorecer a alfabetização, ampliar o vocabulário, estimular a criatividade, fortalecer os vínculos afetivos e desenvolver competências previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Quando bem planejada, a contação de histórias torna a aprendizagem mais significativa e desperta nas crianças o prazer pela leitura desde os primeiros anos escolares.
Neste guia completo, você aprenderá o que é a contação de histórias, quais são seus benefícios para o desenvolvimento infantil, como ela se relaciona com a BNCC, quais técnicas utilizam os melhores contadores de histórias, quais recursos podem tornar suas apresentações mais envolventes e como aplicar tudo isso na prática por meio de um plano de aula pronto. Ao final, você também conhecerá uma oportunidade de formação para quem deseja aprofundar seus conhecimentos e levar essa habilidade para um novo nível.
O que é contação de histórias?

A contação de histórias é uma prática pedagógica e cultural que consiste em narrar uma história de forma envolvente, utilizando recursos como a voz, a expressão corporal, os gestos, as pausas, o olhar e, quando necessário, objetos, músicas, fantoches ou outros materiais de apoio. Seu objetivo vai muito além de transmitir uma narrativa: ela busca despertar emoções, estimular a imaginação, favorecer a construção de significados e criar uma experiência de aprendizagem memorável.
Embora muitas pessoas associem a contação de histórias simplesmente à leitura de um livro infantil, essa é apenas uma das possibilidades. O contador de histórias estabelece uma conexão com o público, adapta sua linguagem às características das crianças, interpreta personagens, cria suspense, faz perguntas e convida os ouvintes a participarem da narrativa. Dessa forma, a história deixa de ser apenas um texto e se transforma em uma vivência compartilhada.
Essa prática acompanha a humanidade há milhares de anos. Muito antes da escrita, histórias eram transmitidas oralmente para preservar conhecimentos, valores, tradições e a identidade dos povos. Hoje, na escola, elas continuam exercendo um papel essencial, mas com objetivos pedagógicos bem definidos, contribuindo para o desenvolvimento da linguagem, da criatividade, da imaginação, da escuta atenta e da formação de leitores.
Leitura, narração, dramatização e contação de histórias: qual é a diferença?
Embora esses termos sejam frequentemente utilizados como sinônimos, eles representam práticas diferentes. Conhecer essas diferenças ajuda o professor a escolher a abordagem mais adequada para cada objetivo pedagógico.
Leitura
Na leitura, o texto escrito é apresentado às crianças exatamente como foi produzido pelo autor. O foco está na obra, preservando sua linguagem, estrutura e sequência. A leitura em voz alta é uma estratégia importante para ampliar o repertório literário das crianças e fortalecer o contato com os livros desde os primeiros anos de escolarização.
Narração
A narração ocorre quando a história é recontada com as palavras do narrador. Nesse caso, o professor não depende do texto escrito e pode adaptar a linguagem, resumir trechos, enfatizar determinadas cenas e estabelecer maior interação com a turma, sem perder a essência da narrativa.
Dramatização
Na dramatização, a história ganha forma por meio da representação dos personagens. Os participantes utilizam diálogos, movimentos, expressões corporais, figurinos e outros elementos cênicos para transformar a narrativa em uma encenação. Essa estratégia favorece a criatividade, o trabalho em equipe e a expressão corporal.
Contação de histórias
A contação de histórias reúne elementos da leitura, da narração e, em alguns momentos, da dramatização, mas possui características próprias. O contador utiliza técnicas de comunicação para envolver emocionalmente os ouvintes, despertando curiosidade, expectativa e participação ativa das crianças. O foco não está apenas no texto, mas na experiência construída entre quem conta e quem escuta.
Em outras palavras, contar histórias é criar um momento de encontro entre a narrativa e as crianças, transformando a aprendizagem em uma experiência significativa.
Por que contar histórias é uma prática pedagógica?
Na escola, a contação de histórias não deve ser vista apenas como um momento de entretenimento ou uma atividade para preencher o tempo entre outras tarefas. Quando planejada com intencionalidade, ela se torna uma estratégia pedagógica capaz de integrar diferentes áreas do conhecimento e promover o desenvolvimento integral das crianças.
Ao ouvir histórias, os estudantes ampliam o vocabulário, desenvolvem a compreensão oral, aprendem a organizar ideias, exercitam a memória, interpretam emoções, formulam hipóteses, fazem inferências e estabelecem relações entre a narrativa e suas próprias experiências. Além disso, a contação de histórias favorece a imaginação, a criatividade, a empatia e o gosto pela leitura, competências fundamentais para a formação de leitores e cidadãos críticos.
Outro aspecto importante é que essa prática dialoga diretamente com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente nos Campos de Experiência da Educação Infantil e nas competências relacionadas à linguagem, à comunicação, à escuta e à convivência. Assim, ao planejar momentos de contação de histórias, o professor não está apenas oferecendo uma atividade prazerosa, mas desenvolvendo habilidades previstas no currículo e criando oportunidades reais de aprendizagem.
Por isso, mais do que contar uma história, o educador atua como mediador entre a narrativa e a criança, despertando a curiosidade, incentivando a participação e mostrando que os livros e as histórias podem acompanhar toda a vida.
Benefícios da contação de histórias para as crianças

A contação de histórias é uma das práticas pedagógicas mais completas da Educação Infantil. Em uma única atividade, é possível estimular a linguagem, o pensamento, a imaginação, a convivência, a criatividade e diversas habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Além de proporcionar momentos de prazer e encantamento, ouvir e participar de histórias favorece o desenvolvimento integral da criança, contribuindo para aspectos cognitivos, emocionais, sociais e linguísticos que serão fundamentais ao longo de toda a vida escolar.
Conheça os principais benefícios dessa prática.
Amplia o vocabulário
Cada história apresenta novas palavras, expressões, formas de organização das frases e diferentes maneiras de comunicar ideias. Mesmo quando a criança ainda não compreende o significado de todos os termos, ela passa a familiarizar-se com eles por meio do contexto da narrativa.
Quanto maior o contato com histórias de qualidade, maior tende a ser o repertório linguístico da criança. Esse enriquecimento do vocabulário facilita a compreensão de textos, melhora a produção oral e escrita e amplia as possibilidades de comunicação.
Na prática: escolha histórias com riqueza de linguagem e reserve alguns minutos para conversar sobre palavras novas, incentivando as crianças a utilizá-las em outras situações do cotidiano escolar.
Desenvolve a atenção e a concentração
Acompanhar uma narrativa exige que a criança mantenha o foco, observe detalhes, acompanhe a sequência dos acontecimentos e relacione diferentes informações ao longo da história.
Com o tempo, essa prática fortalece a capacidade de concentração, habilidade essencial para a aprendizagem em todas as áreas do conhecimento.
Quanto mais envolvente for a contação, maior será o tempo de atenção sustentada dos estudantes.
Na prática: utilize mudanças na entonação da voz, pausas estratégicas e perguntas durante a narrativa para manter o interesse da turma.
Estimula a criatividade
A imaginação despertada pelas histórias incentiva as crianças a criar novos personagens, imaginar cenários, inventar diálogos e construir diferentes possibilidades para uma mesma narrativa.
Esse exercício fortalece o pensamento criativo, a resolução de problemas e a capacidade de produzir ideias originais.
A criatividade desenvolvida durante a contação de histórias também se reflete em brincadeiras, desenhos, produções textuais e projetos escolares.
Na prática: proponha que a turma invente um novo final para a história ou crie uma continuação para a aventura dos personagens.
Desenvolve a empatia
As histórias permitem que as crianças conheçam diferentes personagens, culturas, sentimentos e formas de viver.
Ao acompanhar os desafios enfrentados pelos personagens, elas aprendem a reconhecer emoções, compreender diferentes pontos de vista e refletir sobre as consequências das atitudes humanas.
Essa vivência simbólica favorece o respeito às diferenças, a solidariedade e a convivência democrática.
Na prática: promova conversas sobre como cada personagem se sentiu e pergunte às crianças o que fariam em situações semelhantes.
Estimula o gosto pela leitura
O interesse pelos livros nasce muito antes da alfabetização. Quando a criança associa os livros a momentos agradáveis, divertidos e afetivos, aumenta significativamente a probabilidade de desenvolver o hábito da leitura ao longo da vida.
A contação de histórias desperta curiosidade sobre personagens, autores e novas narrativas, mostrando que os livros são fontes de descoberta, imaginação e conhecimento.
Mais do que ensinar a ler, o professor contribui para formar leitores que escolhem ler porque encontram prazer nessa experiência.
Na prática: mantenha um cantinho da leitura acessível e permita que as crianças explorem livremente os livros após a contação da história.
Contação de histórias e BNCC

Na Educação Infantil, a Base Nacional Comum Curricular organiza o trabalho pedagógico por direitos de aprendizagem, campos de experiências e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. Por isso, os códigos abaixo não devem ser tratados como uma lista automática de habilidades. A seleção depende da história, da faixa etária, das interações propostas e das evidências que o professor pretende observar.
A contação dialoga especialmente com o campo Escuta, fala, pensamento e imaginação, embora uma proposta possa mobilizar outros campos. Consulte sempre a versão oficial da BNCC ao elaborar o planejamento.
| Faixa etária | Código | Objetivo de aprendizagem e desenvolvimento | Relação possível |
|---|---|---|---|
| Crianças bem pequenas | EI02EF03 | Demonstrar interesse e atenção ao ouvir histórias e outros textos, diferenciando escrita e ilustrações e acompanhando, com orientação do adulto-leitor, a direção da leitura. | Escuta e exploração do livro. |
| Crianças bem pequenas | EI02EF04 | Formular e responder perguntas sobre fatos da história, identificando cenários, personagens e acontecimentos principais. | Conversa breve após a narrativa. |
| Crianças bem pequenas | EI02EF05 | Relatar experiências e fatos acontecidos, histórias ouvidas, filmes ou peças teatrais assistidos. | Relato e reconto oral. |
| Crianças bem pequenas | EI02EF06 | Criar e contar histórias oralmente, com base em imagens ou temas sugeridos. | Criação coletiva com imagens. |
| Crianças pequenas | EI03EF01 | Expressar ideias, desejos e sentimentos sobre suas vivências por meio da linguagem oral e escrita, de fotos, desenhos e outras formas de expressão. | Conversa e produção artística. |
| Crianças pequenas | EI03EF03 | Escolher e folhear livros, orientando-se por temas e ilustrações e tentando identificar palavras conhecidas. | Escolha e exploração de livros. |
| Crianças pequenas | EI03EF04 | Recontar histórias ouvidas e planejar coletivamente roteiros de vídeos e encenações, definindo contextos, personagens e estrutura. | Reconto e dramatização. |
| Crianças pequenas | EI03EF05 | Recontar histórias ouvidas para a produção de reconto escrito, tendo o professor como escriba. | Texto coletivo ditado ao professor. |
| Crianças pequenas | EI03EF06 | Produzir histórias orais e escritas, em escrita espontânea, em situações com função social significativa. | Criação de narrativa da turma. |
Esses objetivos pertencem ao campo Escuta, fala, pensamento e imaginação. O professor deve registrar somente os objetivos efetivamente trabalhados, sem usar os códigos como decoração do plano.
Como escolher e preparar uma boa história

Uma boa contação de histórias começa muito antes de o professor reunir as crianças em uma roda de conversa. O sucesso da atividade depende, em grande parte, da escolha da narrativa.
Nem sempre a história mais conhecida será a mais adequada para aquele momento. Uma narrativa excelente para uma turma pode não produzir o mesmo efeito em outra, pois fatores como idade, interesses, contexto da turma, objetivos pedagógicos e duração da atividade influenciam diretamente a experiência das crianças.
Ao selecionar uma história de forma intencional, o professor aumenta significativamente as chances de despertar a curiosidade, manter o interesse da turma e alcançar os objetivos de aprendizagem planejados.
Antes de escolher um livro ou preparar uma narrativa, vale a pena refletir sobre alguns critérios fundamentais.
Considere a faixa etária das crianças
Cada fase do desenvolvimento infantil apresenta características próprias relacionadas à linguagem, ao tempo de atenção, à imaginação e à capacidade de compreender diferentes tipos de narrativa.
Para as crianças menores, histórias curtas, repetitivas e com linguagem simples costumam produzir melhores resultados. Personagens marcantes, repetições, rimas e ilustrações expressivas facilitam a compreensão e incentivam a participação.
À medida que as crianças crescem, tornam-se capazes de acompanhar narrativas mais longas, personagens mais complexos e conflitos que exigem maior interpretação. Nessa etapa, histórias que despertam curiosidade, humor, aventura e resolução de problemas tendem a manter o interesse por mais tempo.
Mais importante do que seguir uma classificação rígida é observar a turma. O professor conhece seus estudantes e consegue perceber quais temas despertam entusiasmo, quais histórias geram maior envolvimento e quais precisam ser adaptadas.
Defina os objetivos pedagógicos
Antes de selecionar qualquer história, faça uma pergunta simples:
O que desejo que meus alunos aprendam ou vivenciem com essa narrativa?
A resposta orientará toda a escolha.
Dependendo do objetivo, a história poderá ser utilizada para:
-
- incentivar o gosto pela leitura;
- desenvolver a oralidade;
- trabalhar valores como respeito, amizade e cooperação;
- explorar emoções;
- introduzir conteúdos de Ciências, Matemática ou História;
- desenvolver a imaginação;
- estimular a produção textual;
- iniciar um projeto interdisciplinar.
Quando a narrativa está alinhada ao planejamento, ela deixa de ser apenas um momento agradável e passa a cumprir uma função pedagógica clara.
Avalie a complexidade da narrativa
Uma boa história deve desafiar a criança sem gerar frustração.
Observe aspectos como:
-
- quantidade de personagens;
- sequência dos acontecimentos;
- riqueza do vocabulário;
- presença de elementos simbólicos;
- conflitos apresentados;
- necessidade de conhecimentos prévios.
Histórias muito complexas podem dificultar a compreensão, enquanto narrativas excessivamente simples podem deixar de estimular a curiosidade.
Sempre que necessário, adapte a linguagem, explique palavras desconhecidas ou utilize recursos visuais para facilitar a compreensão.
Lembre-se de que adaptar uma história não significa modificar sua essência, mas aproximá-la da realidade e das possibilidades da turma.
Valorize a diversidade cultural e a representatividade
As histórias também contribuem para ampliar a visão de mundo das crianças.
Por isso, procure oferecer um repertório variado, que apresente diferentes culturas, tradições, povos, modos de viver, configurações familiares e formas de compreender a realidade.
Ao entrar em contato com narrativas diversas, as crianças aprendem a respeitar diferenças, desenvolvem empatia e ampliam seu repertório cultural.
Também é importante escolher histórias nas quais diferentes crianças possam se reconhecer. Personagens com distintas características físicas, culturais, sociais e familiares favorecem o sentimento de pertencimento e fortalecem a construção de uma escola mais inclusiva.
Ao mesmo tempo, é recomendável revisar criticamente obras mais antigas, identificando estereótipos ou preconceitos que possam exigir mediação do professor durante a leitura ou a contação.
Checklist: como saber se uma história é uma boa escolha?
Antes de levar uma história para a sala de aula, faça uma rápida verificação.
-
- ✅ É adequada à faixa etária da turma?
- ✅ Contribui para os objetivos da aula ou do projeto?
- ✅ A linguagem é compreensível para as crianças?
- ✅ O tempo de duração é compatível com a rotina?
- ✅ A narrativa desperta curiosidade e participação?
- ✅ Os personagens favorecem reflexões importantes?
- ✅ A história respeita a diversidade cultural e promove valores positivos?
Se a maioria das respostas for “sim”, há grandes chances de que a narrativa proporcione uma experiência rica e significativa.
Escolher uma boa história é o primeiro passo para uma contação envolvente. No entanto, mesmo a melhor narrativa pode perder seu potencial quando apresentada de forma pouco expressiva. Por isso, no próximo tópico, veremos como preparar uma contação de histórias capaz de despertar a curiosidade das crianças desde a primeira palavra até o desfecho da narrativa.
Uma boa história pode perder completamente seu encanto quando é contada sem preparo. Da mesma forma, uma narrativa simples pode emocionar, divertir e despertar a curiosidade das crianças quando o professor planeja cuidadosamente cada detalhe da apresentação.
Preparar uma contação de histórias não significa decorar todas as falas ou transformar-se em um ator profissional. O segredo está em conhecer profundamente a narrativa, compreender seus objetivos pedagógicos e criar um ambiente que favoreça a participação das crianças.
A seguir, conheça alguns elementos que fazem toda a diferença para transformar uma simples história em uma experiência inesquecível.
Planejamento
Toda boa contação de histórias começa com planejamento.
Antes de reunir a turma, reserve um tempo para conhecer a narrativa. Leia o livro mais de uma vez, identifique os momentos mais importantes, observe as emoções dos personagens e pense em como cada cena poderá ser apresentada.
Também é importante definir o objetivo da atividade. Pergunte a si mesmo:
-
- O que desejo que meus alunos aprendam com esta história?
- Que sentimentos ou reflexões ela pode despertar?
- Como posso relacionar essa narrativa ao planejamento da aula?
- Quais perguntas farei durante ou após a história?
Outro aspecto fundamental é preparar o ambiente. Sempre que possível, organize um espaço acolhedor, reduza distrações e disponha as crianças de forma que todas consigam ver e ouvir com facilidade. Pequenas mudanças na organização da sala podem tornar esse momento muito mais envolvente.
Ensaios
Um dos maiores erros é acreditar que basta abrir o livro e começar a contar a história.
Mesmo professores experientes costumam ensaiar antes de realizar uma contação. O ensaio ajuda a identificar trechos que exigem maior expressividade, palavras difíceis de pronunciar, momentos de suspense e oportunidades para interagir com a turma.
Não é necessário decorar cada frase. O mais importante é conhecer bem a sequência dos acontecimentos para narrar com naturalidade e segurança.
Uma boa estratégia é contar a história em voz alta para si mesmo ou gravar um pequeno vídeo. Ao assistir à gravação, é possível perceber aspectos que normalmente passam despercebidos, como velocidade da fala, postura corporal e clareza da comunicação.
Ritmo
O ritmo é responsável por conduzir a atenção das crianças durante toda a narrativa.
Falar muito rápido dificulta a compreensão e reduz o impacto dos acontecimentos. Falar excessivamente devagar pode provocar dispersão.
O ideal é variar o ritmo de acordo com cada momento da história. Nas cenas de aventura, a narrativa pode ganhar mais dinamismo. Nos momentos de suspense ou emoção, diminuir a velocidade aumenta a expectativa e desperta ainda mais interesse.
Essa alternância torna a história mais envolvente e evita que a apresentação se torne monótona.
Pausas
Muitos professores acreditam que o silêncio interrompe a narrativa. Na verdade, as pausas fazem parte da história.
Uma pausa bem utilizada cria expectativa, permite que as crianças imaginem o que acontecerá em seguida e destaca acontecimentos importantes.
Depois de uma pergunta, de uma descoberta surpreendente ou antes do desfecho da história, alguns segundos de silêncio podem produzir um efeito muito maior do que diversas palavras.
Aprender a utilizar as pausas é uma das técnicas mais simples e, ao mesmo tempo, mais poderosas da contação de histórias.
Participação das crianças
As melhores contações de histórias não transformam as crianças em simples ouvintes, mas em participantes da narrativa.
Ao longo da história, faça perguntas, incentive previsões, convide a turma a repetir expressões, reproduzir sons, realizar pequenos gestos ou imaginar o que acontecerá em seguida.
Essa participação torna a experiência mais significativa e mantém o envolvimento das crianças durante toda a atividade.
Depois da narrativa, amplie esse momento por meio de conversas, dramatizações, desenhos, produções artísticas, recontos, jogos ou outras atividades relacionadas à história. Assim, a contação deixa de ser um evento isolado e passa a integrar o processo de aprendizagem.
Técnicas para envolver as crianças

Uma boa história não depende apenas de um texto interessante. A forma como ela é apresentada influencia diretamente o envolvimento das crianças. A voz, o corpo e a interpretação funcionam como instrumentos de comunicação capazes de transmitir emoções, criar suspense, diferenciar personagens e conduzir a atenção do público.
A boa notícia é que essas habilidades não são um dom reservado a atores ou contadores profissionais. Elas podem ser desenvolvidas com prática, observação e treinamento. Pequenos ajustes na forma de falar, respirar ou movimentar-se já produzem um impacto significativo na qualidade da narrativa.
Conheça algumas técnicas utilizadas por profissionais da contação de histórias que também podem ser incorporadas ao cotidiano escolar.
Volume: faça sua voz alcançar, não dominar
Um dos erros mais frequentes é acreditar que falar mais alto torna a história mais interessante. Na realidade, o excesso de volume costuma provocar cansaço, dispersão e até competir com a própria narrativa.
O volume deve ser suficiente para que todas as crianças escutem com conforto, mas sem transmitir a sensação de grito ou de comando permanente.
Mais importante do que manter um único volume é aprender a utilizá-lo de forma intencional. Em momentos de grande emoção, a voz pode ganhar intensidade. Já nos trechos mais delicados ou misteriosos, falar mais baixo desperta curiosidade e faz com que a turma naturalmente direcione sua atenção para quem está contando.
Uma boa prática é imaginar que a voz precisa “abraçar” toda a roda de conversa, chegando igualmente a todas as crianças sem esforço excessivo.
Entonação: a emoção está na maneira de dizer
Se todas as frases forem pronunciadas exatamente da mesma maneira, até a melhor história perde parte do seu encanto.
A entonação é responsável por indicar surpresa, alegria, medo, tristeza, entusiasmo ou expectativa. Ela ajuda as crianças a compreenderem as emoções dos personagens antes mesmo de entender completamente todas as palavras.
Variar a melodia da fala também evita a monotonia. Alterações sutis na velocidade, na intensidade e na musicalidade da voz tornam a narrativa mais dinâmica e facilitam a compreensão dos acontecimentos.
Uma estratégia interessante consiste em destacar apenas as passagens realmente importantes. Quando tudo é dito com a mesma intensidade, nada ganha destaque. Ao reservar maior expressividade para momentos decisivos da história, o professor conduz naturalmente a atenção da turma.
Silêncio: um recurso narrativo poderoso
Quem conta histórias costuma preocupar-se com as palavras, mas muitas vezes esquece da força do silêncio.
O silêncio cria expectativa, permite que as crianças processem o que acabaram de ouvir e aumenta o impacto dos acontecimentos mais importantes.
Uma pausa antes da revelação de um mistério, após uma pergunta ou imediatamente antes do desfecho desperta curiosidade e prende a atenção do grupo.
Utilizado com equilíbrio, o silêncio deixa de representar uma interrupção e passa a fazer parte da própria narrativa.
Gestos: comunique sem precisar explicar
Os gestos ajudam a tornar a comunicação mais clara e expressiva.
Apontar uma direção, indicar o tamanho de um objeto, representar uma ação ou mostrar a emoção de um personagem facilita a compreensão da história e reduz a necessidade de explicações adicionais.
Os melhores gestos são aqueles que surgem naturalmente da narrativa. Quando são coerentes com o que está sendo contado, enriquecem a experiência. Quando são excessivos ou repetitivos, acabam desviando a atenção das crianças.
Por isso, prefira movimentos simples, intencionais e realizados apenas quando realmente acrescentarem significado à narrativa.
Postura: presença que transmite segurança
Antes mesmo de pronunciar a primeira palavra, o corpo já comunica mensagens às crianças.
Uma postura equilibrada transmite segurança, disponibilidade e acolhimento. Permanecer excessivamente rígido pode criar distanciamento, enquanto movimentos constantes e sem propósito tendem a gerar distração.
Durante a contação, mantenha uma posição confortável, distribuindo bem o peso do corpo e movimentando-se apenas quando isso contribuir para a narrativa.
Também é importante evitar barreiras físicas desnecessárias. Sempre que possível, aproxime-se da turma, mantenha-se na altura das crianças quando estiver sentado e permita que todos consigam vê-lo com facilidade.
Mais do que interpretar personagens, o professor precisa estar presente na história. Essa presença — construída pela voz, pela postura, pelo olhar e pela expressão — cria uma conexão genuína com as crianças e faz com que cada narrativa seja vivida como uma experiência compartilhada, e não apenas como uma sequência de palavras.
Uma das maiores preocupações dos professores é manter a turma interessada do início ao fim da narrativa. Quando algumas crianças começam a conversar, outras se distraem facilmente e, em poucos minutos, a história perde força.
Nessas situações, é comum pensar que o problema está na turma ou na própria história. No entanto, na maioria das vezes, a atenção das crianças depende muito mais da forma como a experiência é construída do que do comportamento dos alunos.
Crianças pequenas são naturalmente curiosas. Elas gostam de descobrir, imaginar, participar e fazer perguntas. O desafio do professor é transformar essa curiosidade em interesse contínuo pela narrativa.
Para isso, vale pensar na contação de histórias como uma experiência dividida em três momentos: antes, durante e depois da narrativa.
Antes da história: desperte a curiosidade
A atenção não começa quando o professor abre o livro. Ela começa muito antes.
Criar expectativa é uma das estratégias mais eficientes para despertar o interesse das crianças.
Em vez de apresentar imediatamente o título da história, experimente iniciar com uma pergunta intrigante, um objeto misterioso ou uma situação inesperada.
Por exemplo:
-
- “Hoje encontrei uma chave muito antiga… de quem será?”
- “Vocês já imaginaram conversar com um dragão?”
- “O que vocês fariam se encontrassem uma floresta onde os animais falam?”
Essas perguntas ativam a imaginação e fazem com que as crianças queiram descobrir a resposta.
Outra estratégia simples é esconder parte da capa do livro ou mostrar apenas um detalhe da ilustração, incentivando a turma a levantar hipóteses sobre a história.
O ambiente também influencia a atenção. Sempre que possível, organize um espaço confortável, reduza distrações visuais e estabeleça um pequeno ritual para marcar o início desse momento. Uma música curta, um objeto especial ou uma frase repetida em todas as contações ajudam as crianças a compreender que algo importante está prestes a acontecer.
Quando existe expectativa, a atenção surge naturalmente.
Durante a história: transforme os ouvintes em participantes
Uma história deixa de ser interessante quando as crianças assumem apenas o papel de espectadoras.
Quanto maior a participação, maior tende a ser o envolvimento.
Isso não significa interromper constantemente a narrativa, mas criar oportunidades para que a turma acompanhe a história de maneira ativa.
Algumas estratégias costumam funcionar muito bem:
-
- pedir que as crianças antecipem o que poderá acontecer;
- convidá-las a repetir uma frase marcante da história;
- reproduzir sons da natureza, de animais ou de personagens;
- utilizar pequenas perguntas que incentivem a observação;
- permitir que façam gestos combinados em determinados momentos da narrativa.
Também é importante observar continuamente as reações da turma.
Se perceber sinais de dispersão, faça uma breve pausa, altere o ritmo da narrativa ou proponha uma pequena interação antes de continuar.
Outro cuidado importante é respeitar o tempo das crianças. Nem toda pergunta precisa ser respondida imediatamente. Muitas vezes, alguns segundos de espera são suficientes para que elas organizem suas ideias e participem com mais confiança.
A participação não precisa acontecer o tempo todo. Ela deve surgir em momentos estratégicos, enriquecendo a narrativa sem interromper seu fluxo.
Depois da história: prolongue o encantamento
O fim da narrativa não representa o fim da aprendizagem.
Na verdade, é nesse momento que muitas das reflexões mais importantes acontecem.
Evite encerrar a atividade logo após a última página do livro. Reserve alguns minutos para conversar com a turma.
Em vez de perguntar apenas “Vocês gostaram da história?”, proponha questões que estimulem a reflexão, como:
-
- Qual personagem chamou mais sua atenção? Por quê?
- O que você faria se estivesse no lugar dele?
- A história poderia ter outro final?
- Que parte mais surpreendeu você?
- Que mensagem essa história nos deixou?
Essas perguntas incentivam a argumentação, desenvolvem a oralidade e ajudam as crianças a construir significados para a narrativa.
Depois da conversa, a história pode continuar por meio de diferentes propostas pedagógicas:
-
- dramatizações;
- desenhos;
- produção coletiva de um novo final;
- reconto oral;
- criação de personagens;
- construção de cenários;
- jogos relacionados à narrativa;
- projetos de leitura.
Essas atividades reforçam a aprendizagem e mostram às crianças que as histórias não terminam quando o livro é fechado.
Recursos pedagógicos e erros que devem ser evitados

Uma boa contação de histórias não depende de materiais sofisticados. O elemento mais importante continua sendo a capacidade do professor de criar conexão com as crianças por meio da narrativa. Entretanto, quando utilizados com intencionalidade pedagógica, alguns recursos podem enriquecer a experiência, despertar a curiosidade, facilitar a compreensão e ampliar as possibilidades de participação da turma.
É importante lembrar que o recurso deve servir à história, e não o contrário. O excesso de elementos visuais ou sonoros pode desviar a atenção das crianças e fazer com que elas se concentrem mais nos objetos do que na narrativa. O equilíbrio é a chave para transformar esses materiais em aliados da aprendizagem.
Conheça alguns dos recursos mais utilizados por professores e contadores de histórias.
Livros
O livro continua sendo o recurso mais importante da contação de histórias. Além de aproximar as crianças da literatura, ele fortalece o vínculo com a leitura e ajuda a construir o hábito de frequentar bibliotecas e cantinhos de leitura.
Ao utilizar um livro durante a contação, procure apresentar a capa, o título, o nome do autor e do ilustrador, permitindo que as crianças façam previsões sobre a narrativa antes mesmo da leitura começar.
As ilustrações também merecem atenção. Mostrá-las no momento adequado ajuda a enriquecer a compreensão da história e estimula a observação de detalhes que podem passar despercebidos.
Mais do que um suporte para a narrativa, o livro deve ser apresentado como um objeto cultural que desperta curiosidade e convida à descoberta de novas histórias.
Fantoches
Os fantoches aproximam as crianças dos personagens e favorecem a interação durante a narrativa.
Eles são especialmente indicados para histórias dialogadas, pois permitem diferenciar personagens com facilidade e criar conversas mais dinâmicas. Além disso, despertam a imaginação e incentivam as crianças a criarem suas próprias narrativas.
O professor não precisa utilizar um fantoche para cada personagem. Muitas vezes, um único elemento já é suficiente para representar o protagonista e tornar a história mais expressiva.
Transparência: este artigo contém links de afiliado. Se você realizar uma compra por meio deles, o blog poderá receber uma comissão, sem qualquer custo adicional para você. Indicamos apenas formações relacionadas ao tema do conteúdo.
Bonecos podem ampliar a expressividade quando têm uma função clara na narrativa. Para quem deseja aprender a construir esse tipo de recurso, há uma formação específica:
CONHECER O CURSO DE CONSTRUÇÃO DE BONECOS
Música
A música cria atmosfera, marca transições entre cenas e contribui para envolver emocionalmente o grupo.
Canções simples, sons produzidos pelas próprias crianças ou pequenas trilhas instrumentais podem enriquecer determinados momentos da narrativa sem competir com a voz do contador.
O ideal é utilizar a música de forma pontual, valorizando passagens importantes da história e incentivando a participação da turma.
Materiais recicláveis
Caixas de papelão, rolos de papel, garrafas plásticas, tampinhas, tecidos, embalagens e diversos outros materiais recicláveis podem ser transformados em personagens, cenários e objetos para contação de histórias.
Além de reduzir custos, essa prática estimula a criatividade, promove a educação ambiental e pode envolver as próprias crianças na construção dos recursos que serão utilizados posteriormente nas narrativas.
Produzir materiais com a turma também fortalece o sentimento de pertencimento e amplia o envolvimento com as histórias.

Mesmo professores experientes descobrem, com o tempo, que uma boa contação de histórias é construída por meio da prática. É natural cometer alguns equívocos, principalmente no início. O importante é reconhecer esses desafios e transformá-los em oportunidades de aperfeiçoamento.
A seguir, conheça alguns dos erros mais frequentes e veja como pequenas mudanças podem tornar suas histórias muito mais envolventes.
Erro 1: Escolher uma história sem considerar a turma
Por que acontece
Muitas vezes, o professor seleciona uma história porque gosta dela ou porque faz parte do planejamento, sem avaliar se ela corresponde à faixa etária, aos interesses e ao repertório das crianças.
Quando a narrativa é muito longa, complexa ou distante da realidade da turma, o interesse tende a diminuir rapidamente.
Como corrigir
Antes de escolher uma história, considere quem são seus alunos, quais experiências já possuem e quais objetivos deseja alcançar. Uma mesma obra pode ser excelente para uma turma e pouco adequada para outra. Adaptar a escolha ao contexto é um dos primeiros passos para uma contação bem-sucedida.
Erro 2: Transformar a contação em uma aula expositiva
Por que acontece
Na tentativa de ensinar valores ou conteúdos, alguns professores interrompem a narrativa constantemente para fazer explicações ou longas reflexões.
Com isso, o ritmo da história se perde e as crianças deixam de acompanhar naturalmente os acontecimentos.
Como corrigir
Permita que a história cumpra seu papel. As reflexões podem surgir durante a conversa após a narrativa ou em atividades posteriores. Em muitos casos, as próprias crianças identificam mensagens e aprendizados sem necessidade de explicações excessivas.
Erro 3: Fazer perguntas o tempo todo
Por que acontece
Estimular a participação é importante, mas o excesso de perguntas interrompe a narrativa e dificulta a construção da expectativa.
Quando cada página é seguida por uma nova pergunta, a história perde continuidade.
Como corrigir
Selecione apenas alguns momentos estratégicos para envolver a turma. Perguntas bem escolhidas produzem muito mais efeito do que intervenções constantes.
Erro 5: Utilizar recursos em excesso
Por que acontece
Na tentativa de tornar a atividade mais interessante, alguns professores utilizam muitos objetos, músicas, fantasias, projeções e efeitos ao mesmo tempo.
Em vez de enriquecer a história, esses elementos acabam competindo pela atenção das crianças.
Como corrigir
Escolha apenas os recursos que realmente contribuem para a compreensão da narrativa. O foco deve permanecer na história e na interação entre o contador e a turma.
Erro 7: Não permitir que as crianças interpretem a história
Por que acontece
Às vezes, o professor apresenta imediatamente a “moral da história”, acreditando que essa é a melhor forma de garantir a aprendizagem.
No entanto, essa postura reduz o espaço para que as crianças formulem hipóteses, expressem opiniões e construam seus próprios significados.
Como corrigir
Valorize as interpretações dos estudantes. Perguntas abertas costumam produzir conversas muito mais ricas do que respostas prontas. Cada criança pode perceber aspectos diferentes da mesma narrativa, e essa diversidade de olhares enriquece a aprendizagem.
Plano de aula de contação de histórias para a Educação Infantil

A contação de histórias ganha ainda mais significado quando faz parte do planejamento pedagógico. Em vez de ser uma atividade isolada, ela pode introduzir novos conteúdos, estimular a linguagem, desenvolver habilidades socioemocionais e fortalecer o interesse pela leitura.
O plano de aula apresentado a seguir foi elaborado como um modelo flexível. Ele pode ser adaptado conforme a faixa etária, os objetivos de aprendizagem, o contexto da turma e a história escolhida pelo professor.
Objetivos de aprendizagem
Ao final da atividade, espera-se que as crianças sejam capazes de:
-
- ouvir uma narrativa com atenção e interesse;
- participar de situações de escuta e diálogo;
- ampliar o vocabulário por meio do contato com diferentes histórias;
- expressar ideias, sentimentos e opiniões sobre a narrativa;
- desenvolver a imaginação e a criatividade;
- respeitar o momento de fala dos colegas;
- recontar partes da história utilizando suas próprias palavras;
- estabelecer relações entre a narrativa e situações do cotidiano.
Mais do que memorizar acontecimentos, o objetivo é favorecer experiências significativas de aprendizagem por meio da literatura.
Alinhamento com a BNCC
A proposta dialoga principalmente com os princípios da Educação Infantil previstos na BNCC, especialmente aqueles relacionados à linguagem, à imaginação, à interação e à construção de significados.
Dependendo da história escolhida e das atividades desenvolvidas, podem ser contemplados objetivos vinculados aos Campos de Experiência:
-
- Escuta, fala, pensamento e imaginação;
- O eu, o outro e o nós;
- Traços, sons, cores e formas;
- Corpo, gestos e movimentos.
Também favorece o desenvolvimento de competências relacionadas à comunicação, à criatividade, à convivência, ao repertório cultural e à participação ativa das crianças.
Dica: ao elaborar seu planejamento semanal, registre explicitamente quais objetivos de aprendizagem da BNCC serão priorizados na atividade. Isso facilita a organização pedagógica e a documentação do trabalho desenvolvido.
Recursos
Selecione apenas os materiais que realmente contribuirão para enriquecer a experiência.
Sugestões:
-
- livro infantil;
- fantoche ou boneco (opcional);
- objetos relacionados à narrativa;
- caixa surpresa ou sacola da história;
- avental de histórias (se disponível);
- caixa de som para uma música de abertura ou encerramento (opcional);
- folhas, lápis de cor, tinta ou outros materiais para atividades posteriores.
Lembre-se de que o recurso mais importante continua sendo a interação entre professor, crianças e narrativa.
Desenvolvimento da aula
1. Acolhida (5 minutos)
Receba as crianças em roda e desperte a curiosidade utilizando um objeto relacionado à história, uma pergunta instigante ou um pequeno desafio.
Exemplo:
“Hoje trouxe um objeto muito especial. Quem consegue imaginar a que história ele pertence?”
Permita que as crianças levantem hipóteses antes de revelar o livro.
2. Apresentação da obra (5 minutos)
Mostre a capa, leia o título, apresente o autor e o ilustrador.
Converse rapidamente sobre as ilustrações e incentive as crianças a preverem o que poderá acontecer durante a narrativa.
Esse momento desenvolve a observação, a antecipação de ideias e o interesse pela leitura.
3. Contação da história (15 a 20 minutos)
Realize a narrativa utilizando os recursos previamente planejados.
Durante a contação:
-
- respeite o ritmo da história;
- estabeleça contato visual com a turma;
- valorize as emoções presentes na narrativa;
- faça pausas estratégicas;
- incentive pequenas participações sem interromper excessivamente o fluxo da história.
O objetivo principal é permitir que as crianças vivenciem a experiência literária.
4. Conversa sobre a história (10 minutos)
Após a narrativa, promova uma roda de conversa.
Evite perguntas que possam ser respondidas apenas com “sim” ou “não”.
Prefira questões como:
-
- Qual personagem chamou mais sua atenção? Por quê?
- Como você acha que ele estava se sentindo?
- O que faria se estivesse no lugar dele?
- Você mudaria o final da história?
- Essa situação já aconteceu com você?
Esse momento favorece a argumentação, a escuta e o respeito às diferentes opiniões.
5. Atividade de ampliação (20 a 30 minutos)
Escolha uma proposta relacionada à história, por exemplo:
-
- desenho da cena preferida;
- dramatização;
- reconto coletivo;
- construção de personagens;
- criação de um novo final;
- produção artística;
- sequência de imagens;
- confecção de fantoches;
- criação de um mural da história.
O importante é permitir que as crianças expressem o que compreenderam da narrativa utilizando diferentes linguagens.
Avaliação
A avaliação deve ocorrer durante toda a atividade, por meio da observação da participação das crianças.
Alguns aspectos que podem ser acompanhados:
-
- interesse pela narrativa;
- participação nas conversas;
- capacidade de ouvir os colegas;
- compreensão dos acontecimentos;
- ampliação do vocabulário;
- criatividade nas atividades posteriores;
- desenvolvimento da oralidade;
- envolvimento com a leitura.
Em vez de avaliar respostas certas ou erradas, procure registrar evidências do desenvolvimento das crianças ao longo das experiências propostas.
Possíveis adaptações
Cada turma possui características próprias. Por isso, o plano pode ser ajustado conforme as necessidades dos estudantes.
Algumas possibilidades incluem:
-
- utilizar histórias mais curtas para crianças menores;
- dividir narrativas longas em mais de um encontro;
- ampliar o uso de recursos visuais para favorecer a compreensão;
- oferecer objetos concretos para exploração sensorial quando necessário;
- adaptar a linguagem da narrativa sem modificar sua essência;
- organizar grupos menores para favorecer a participação de crianças mais tímidas;
- planejar recursos de acessibilidade, como livros com imagens ampliadas, materiais táteis, comunicação alternativa ou apoio de Libras, conforme as necessidades da turma.
Sugestões para ampliar o projeto
Uma única história pode dar origem a um projeto de leitura desenvolvido ao longo de vários dias ou semanas.
Algumas possibilidades são:
-
- montar um cantinho da história na sala;
- criar um “livro da turma” inspirado na narrativa;
- produzir personagens com materiais recicláveis;
- organizar um dia de contação de histórias com participação das famílias;
- promover uma feira literária;
- convidar as crianças a levarem livros para casa e compartilharem a leitura com seus familiares.
Essas ações fortalecem o vínculo entre escola, literatura e comunidade, mostrando que a contação de histórias pode ultrapassar os limites da sala de aula e tornar-se uma experiência permanente de aprendizagem.
Material de apoio para o professor: este plano de aula pode ser adaptado para diferentes livros e projetos pedagógicos. Guarde esta estrutura como um roteiro permanente de planejamento e personalize cada etapa de acordo com os objetivos da sua turma.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre ler e contar histórias?
Embora ambas sejam estratégias importantes para a formação de leitores, elas não são a mesma prática.
Na leitura, o professor apresenta o texto exatamente como foi escrito pelo autor, preservando sua linguagem, estrutura e sequência narrativa.
Na contação de histórias, a narrativa é compartilhada de forma mais livre e expressiva. O contador utiliza a voz, o olhar, a expressão corporal e outros recursos para envolver emocionalmente as crianças, podendo adaptar a linguagem sem perder a essência da história.
As duas estratégias são complementares e devem fazer parte da rotina escolar.
Preciso decorar toda a história?
Não.
O mais importante é compreender profundamente a narrativa, conhecer a sequência dos acontecimentos e identificar os momentos mais importantes da história.
Quando o professor entende a mensagem principal e os conflitos da narrativa, consegue contar a história com muito mais naturalidade do que simplesmente decorando todas as palavras.
Posso utilizar o livro durante a contação?
Sim.
Utilizar o livro é uma excelente estratégia, principalmente na Educação Infantil.
Além de apoiar a narrativa, o livro aproxima as crianças do universo da leitura, permite explorar as ilustrações e valoriza autores e ilustradores.
Dependendo da proposta, o professor pode alternar momentos de leitura com momentos de narração mais livre, aproveitando o melhor de cada abordagem.
Quanto tempo deve durar uma contação de histórias?
Não existe um tempo único para todas as turmas.
A duração depende da faixa etária, da complexidade da narrativa e dos objetivos da atividade.
Como orientação geral:
-
- crianças menores: histórias mais curtas;
- crianças em fase de alfabetização: narrativas de duração intermediária;
- turmas maiores: histórias mais longas, acompanhadas de momentos de diálogo e reflexão.
Mais importante do que a duração é manter o envolvimento da turma durante toda a experiência.
A contação de histórias ajuda na alfabetização?
Sim.
Embora não ensine a leitura e a escrita de forma direta, a contação de histórias cria um ambiente extremamente favorável ao processo de alfabetização.
Ela amplia o vocabulário, fortalece a oralidade, desenvolve a compreensão de narrativas, desperta o interesse pelos livros e favorece a construção de competências que servirão de base para a aprendizagem da leitura e da escrita.
Por isso, ela deve ser entendida como uma importante aliada das práticas de alfabetização.
Preciso fazer uma atividade depois da história?
Nem sempre.
Há momentos em que a própria experiência de ouvir uma boa história já é suficiente.
Entretanto, quando existe um objetivo pedagógico definido, atividades de continuidade podem ampliar significativamente a aprendizagem.
Conversas, dramatizações, desenhos, produções artísticas, recontos e projetos de leitura são algumas possibilidades que ajudam as crianças a aprofundar a compreensão da narrativa.
O mais importante é que essas atividades façam sentido e estejam relacionadas à história, evitando propostas apenas para “preencher o tempo”.
Conclusão
Contar histórias é criar condições para que as crianças escutem, imaginem, conversem, interpretem e construam sentidos. A qualidade da experiência não depende de uma apresentação perfeita nem de muitos materiais, mas da escolha cuidadosa da obra, da presença do professor e do respeito ao modo como cada grupo participa.
Comece com uma narrativa adequada à turma, ensaie a sequência, planeje poucas intervenções e observe as respostas das crianças. Os registros produzidos nesse processo ajudam a aperfeiçoar as próximas propostas e a integrar a literatura à rotina sem transformar toda história em pretexto para uma ficha.
Para aprofundar técnicas de voz, presença, planejamento e uso pedagógico das narrativas, conheça a formação principal indicada neste guia:
CONHECER O CURSO AVANÇADO DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS
Continue aprendendo
- 10 livros essenciais para professores
- Recursos e materiais didáticos para o planejamento de aulas
- Estratégias práticas para professores organizarem o trabalho pedagógico
Como referência complementar, consulte também o verbete Contação de histórias, do CEALE/UFMG.



